Um esquema criminoso que existe desde o fim da década de 90, vendendo
facilidades a empresários do ramo de transportes (e mais recentemente a
empreiteiros) em troca de propina, e que tem outros líderes além do
ex-governador Sérgio Cabral (PMDB).
É isto o que denuncia o Ministério Público Federal (MPF) na Operação "Cadeia Velha",
deflagrada na terça-feira (14), em que pede a prisão dos deputados
estaduais Jorge Picciani, Edson Albertassi e Paulo Melo - todos do PMDB,
apontado como líderes da mesma quadrilha.
Picciani é presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro,
cargo que também foi ocupado por Paulo Melo. Albertassi, segundo os
investigadores, seria uma figura de ascensão dentro do grupo.
"Apesar de inicialmente indicar que (a organização criminosa) era
chefiada apenas por Sérgio Cabral (...) Revelou-se, com o avançar das
investigações, que existiam outras lideranças, como os deputados
estaduais Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi", diz o texto do
MPF.
Os três parlamentares articulariam a aprovação de projetos favoráveis
aos empresários que pagavam as vantagens indevidas. Além disso,
pressionariam para aprovar as contas dos governadores mesmo tendo
ressalvas apresentadas pelos técnicos do Tribunal de Contas do Estado
(TCE).
Já os conselheiros do órgão, como revelara a Operação Quinto D'Ouro, também participariam do conluio.
Desvios de mais de R$ 100 milhões
De acordo com planilhas apresentadas pelo delator Álvaro Novis, Melo —
apelidado de Pinguim — teria recebido R$ 54 milhões da Fetranspor.
Picciani, R$ 58 milhões. Nestes documentos, o atual presidente da Alerj
recebia a alcunha de Platina.
O MPF aponta Picciani como o "o político mais influente do estado". Os
investigadores citam ainda o aumento exponencial da relação patrimonial
dele e de Paulo Melo, decorrente de lavagem de dinheiro através de
negócios imobiliários e de gado. Melo ainda é apontado como o
responsável por nomeações no Detran por conta de sua influência
política.
A dupla também teria recebido valores da Odebrecht por tentar aprovar
leis que favorecessem as empresas. Picciani, que nas planilhas da
empreiteira era o "Grego", seria beneficiário de R$ 7 milhões, enquanto
Melo, o "Maria Mole", teria recebido repetidos pagamentos no valor de R$
250 mil.
"Constata-se que o Poder Executivo, o Poder Legislativo e o Tribunal de
Contas (do Estado do Rio) - presumidamente que deveriam ser autônomos,
independentes, com dever de fiscalização recíproca - na realidade estão
estruturados em flagrante organização criminosa com o fim de garantir
contíuo desvio de recursos publicos e lavagem de capitais", afirma o
delegado da Polícia Federal Alexandre Ramagem Rodrigues.
De acordo com a Polícia Federal, havia "excessivos benefícios fiscais" a
empresas de transporte e empreiteiras, fazendo com que o Estado
deixasse de receber mais de R$ 138 bilhões. Em troca das isenções, os
parlamentares ganhavam propina. Para Ramagem, a corrupção causou o
colapso da economia fluminense.
O que dizem os suspeitos
Jorge Picciani: Em nota, o deputado disse que "em toda a carreira
jamais recebeu qualquer vantagem" e que a prisão do filho é "uma
covardia" feita para atingi-lo.
Edson Albertassi: O deputado diz que as acusações serão contestadas por
sua defesa, que ainda não teve acesso ao inquérito. Albertassi, que
declinou oficialmente a indicação ao TCE, acrescentou que "confia na
Justiça e está à disposição para esclarecer os fatos".
Paulo Melo: Em nota, o deputado informou que esta "à disposição da
justiça" e irá "contribuir com as investigações". "Não tenho nada a
esconder. Minha vida política sempre foi muito clara, todas as
contribuições recebidas foram legais e declaradas na justiça eleitoral",
comunica o texto.
Por Gabriel Barreira, G1 Rio





