A Catalunha escolhe nesta quinta-feira (21) um novo governo, e muitos
esperam que a eleição resolva a pior crise enfrentada pela Espanha em
décadas, quando a região declarou independência, levando Madri a
destituir líderes locais. Os locais de votação já abriram as portas.
A eleição foi convocada pelo governo central de Madri após a
destituição da liderança catalã, que havia declarado a independência em
outubro. O premiê Mariano Rajoy demitiu a liderança catalã, dissolveu o
Parlamento regional e convocou eleições antecipadas - estas que serão
realizadas nesta quinta.
Todo o governo catalão destituído é investigado pela Justiça espanhola.
Vários ex-conselheiros e Carles Puigdemont, o presidente destituído da
Catalunha, estão refugiados na Bélgica.
Segundo os organizadores, 90% dos eleitores se posicionaram a favor da
independência, mas só metade do eleitorado catalão participou do pleito -
o que causa incertezas quanto ao real apoio popular ao separatismo.
A aposta de Madri é capitalizar em cima do desencanto de parte dos
catalães com o separatismo, com a expectativa de que a eventual eleição
de líderes pró-Espanha voltem a ancorar a Catalunha ao país.
Essas eleições são atípicas: uma parte dos candidatos separatistas está
na prisão, outra fora do país e as instituições da Catalunha estão
sendo administradas em Madri.
Polarização
As opções políticas estão polarizadas entre separatistas e
constitucionalistas, ou seja,contrários à independência. Se não houver
surpresa de última hora, nenhum partido dos sete concorrentes vai
conseguir as 68 cadeiras necessárias para ter a maioria absoluta no
Parlamento catalão.
O movimento separatista sabe que não pode se desligar da Espanha
unilateralmente e os partidos constitucionalistas não podem
desconsiderar o desejo de mais de dois milhões de catalães que querem
que a Catalunha seja uma República independente.
O contexto é complexo. Para a situação voltar à normalidade, a
Catalunha deve voltar a ser governada pelos seus candidatos eleitos e o
famoso artigo 155 aplicado pelo governo de Mariano Rajoy para suspender o
governo de Carles Puigdemont deve ser desativado.
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| Um eleitor deposita sua cédula enquanto outros esperam para votar nas eleições regionais da Catalunha em uma mesa de voto em Sant Cugat del Valles. (Foto: Eric Gaillard/Reuters) |
Candidata separatista ganha força
O que mais preocupa os separatistas é a possibilidade da vitória do
partido Cidadãos. Sua candidata, Inés Arrimadas, a jovem política
andaluza que lidera o partido Cidadãos na Catalunha, disparou na
intenção de voto das últimas sondagens, superando inclusive o histórico
partido separatista ERC que vinha sendo o líder.
Nenhuma pesquisa garantiu a governabilidade de nenhum dos sete partidos
concorrentes e todos sabem que vão ter que fazer alianças. O bloco
constitucionalista foi formado pelos partidos que apoiaram a intervenção
da Catalunha: o conservador Partido Popular do primeiro-ministro
Mariano Rajoy, o novo partido da direita Cidadãos, considerado mais à
direita que o PP e o partido socialista da Catalunha (PSC).
No bloco separatista estão o partido Esquerda Republicana da Catalunha
ERC, o Juntos pela Catalunha, liderado por Carles Puigdemont, o
presidente destituído da Catalunha e o partido de extrema-esquerda CUP
(Candidatura da Unidade Popular).
No meio, entre um bloco e outro, está o partido Catalunha em Comum. Um
partido jovem de esquerda contrário à independência, surgido do
movimento social 15M, que defende um referendo negociado com o governo
espanhol. É o partido da prefeita de Barcelona, Ada Colau. As pesquisas
apontam Catalunha em Comum como um dos partidos que vai disputar a
governabilidade da Catalunha com o Partido Socialista buscando alianças.
Até o final da campanha nem Catalunha em Comum nem o Partido Socialista
admitiram fazer acordos entre si. Cidadãos e PP previsivelmente vão se
apoiar. A dúvida é se o PSC vai continuar alinhado com os partidos da
direita, PP e Cidadãos, ou se vai ter o jogo de cintura suficiente para
sair do bloco que promoveu o artigo 155 e buscar acordos com a esquerda.
Situação de Puigdemont
Puigdemont apostou todas as fichas numa só carta: a de ser o mais
votado para voltar à Catalunha como presidente do Governo catalão
(Generalitat) e provar que a aplicação do artigo 155 de Rajoy não acabou
com o independentismo. Ele não considera não ganhar as eleições e
ninguém se aventura a prever o que ele vai fazer caso isso aconteça.
Incerteza reflete na economia
A incerteza provocada pela iniciativa separatista
prejudicou a taxa de ocupação dos hotéis da região, diminuiu as vendas
ao consumidor e induziu mais de 3 mil empresas a retirarem suas sedes da
Catalunha.
A crise também dividiu a sociedade catalã entre aqueles que apoiam a
independência e aqueles que preferem a união com a Espanha.
"Todos estão ansiosos pela eleição e para ver no que ela vai dar,
porque nada está claro no momento", disse Maria Gonzalez, professora de
flamenco de 34 anos que mora em Cerdanyola del Valles, um subúrbio
industrial de Barcelona.
"O sentimento nas ruas não é agradável", opinou Maria, filha de
migrantes de outras partes do país que se mudou para a Catalunha décadas
atrás e que planeja votar pelo partido pró-união Ciudadanos. "Há uma
tensão oculta".
* Com RFI
Por G1






