Suely Campos disse que não vai discutir assuntos de Estado em saguão de aeroporto
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| Anúncio foi feito no início da noite de ontem pela própria governadora Suely Campos (Foto: Nilzete Franco) |
A governadora de
Roraima, Suely Campos (PP), anunciou na noite de ontem, 7, que não
deverá participar da reunião com os ministros Torquato Jardim (Justiça),
Raul Jungmann (Defesa) e Sérgio Etchegoyen (Gabinete de Segurança
Institucional da Presidência da República), prevista para a manhã de
hoje, 8, para tratar da crise migratória dos venezuelanos.
Suely considerou um desrespeito os
ministros terem cancelado a reunião agendada no Palácio do Governo para
discutir a situação dos venezuelanos e terem transferido o encontro para
a Base Área de Boa Vista, durante um pouso técnico com destino ao
Suriname.
A manifestação de Suely ocorreu depois
da nota de repúdio divulgada pela bancada de Roraima na Câmara dos
Deputados, segundo a qual o Governo Federal “não está dando a devida
importância para o caos em que estamos vivendo”.
“É muito desagradável verificar como é
que o Governo Federal está tratando o estado de Roraima. O fluxo
migratório dos venezuelanos está impactando Roraima, sem falar na
conexão do crime organizado do Brasil com a Venezuela. Ficamos surpresos
com cancelamento da reunião. Não aceito ver meu Estado tratado com tal
descaso pelo Governo Federal. Me recuso a tratar de assuntos de
interesse da segurança nacional em saguão de aeroporto”, frisou.
A governadora afirmou ainda que os
ministros estariam vindo para Roraima apenas fazer ‘campanha’ para o
senador Romero Jucá. “Os venezuelanos já são 10% da população de
Roraima. E temos certeza que os interesses políticos foram colocados
nesse caso acima dos interesses da população”, criticou Suely Campos.
“Ele [Jucá] anunciou em rede social que
estava trazendo os ministros e é lamentável um assunto desse ser tratado
dessa forma. Não existe boa vontade do Governo Federal com Roraima e
precisamos cobrar. Eles [ministros] me disseram que precisavam ganhar
tempo e seguir viagem para tratar de assuntos de fronteira. Tem tempo
para tratar fronteira no Suriname e não tem tempo para tratar fronteira
em Roraima?”, questionou.
AUMENTO EXPRESSIVO –
Suely destacou que em áreas como educação e saúde houve aumento
expressivo de atendimento a venezuelanos. “Na educação, aumentou 100% o
número de matrículas. Na saúde, temos um acréscimo de mais de 3.000% e,
na maternidade, nascem diariamente cinco bebês de mães venezuelanas por
dia”, exemplificou.
Outro ponto abordado pela governadora
foi a questão da segurança pública. Suely afirmou que houve aumento
expressivo na criminalidade e que o crime organizado está usando Roraima
como base para aumentar o tráfico de armas e drogas da Venezuela para o
Brasil. “Nós estamos detectando a conexão do crime organizado com a
Venezuela, o que é muito preocupante. Fomos surpreendidos com esse
cancelamento da reunião que teria dados, sugestões e projetos para
entregar aos ministros. Como tratar um tema tão relevante numa escala na
Base Aérea? Não aceito e não vou aceitar que Roraima conviva com um
descaso desse do Governo Federal”, afirmou.
A governadora disse que já levou o
assunto, por diversas vezes, ao Governo Federal, mas que efetivamente,
de relevante, a única coisa que a União fez foi o envio de R$ 480 mil,
“que foi usado para comprar alimentos aos abrigos que hoje servem apenas
para acolher aos venezuelanos”. “[Os abrigos] são provisórios e não
temos estrutura para tanta gente. Nosso material está aí e vamos
encaminhar depois se eles realmente não vierem aqui”, comentou.
Suely disse ainda que entrou em contato
com o ministro do Gabinete da Segurança Institucional, Sérgio
Etchegoyen, para reclamar da mudança. “Falei que não aceitava e que já
tinha organizado uma reunião fechada para tratar do tema segurança, uma
reunião sigilosa, pois os assuntos são sérios a nível de investigação.
Ficaram de me dar resposta e não deram”, contou.
Ela esclareceu que toda a política de
atendimento a imigrantes é responsabilidade do Governo Federal,
incluindo o controle das fronteiras, o ingresso e permanência de
estrangeiros, assim como a documentação e assistência social, conforme
definido na Constituição Federal, na Lei da Migração e no decreto
recentemente expedido pelo presidente da República.
“Portanto, essa crise que estamos
enfrentando é tema muito importante, que precisa de maior atenção da
esfera federal. Nosso Estado não está em condições financeiras para
arcar com todo esse processo, e nem é nossa jurisdição. Sofremos um
grande impacto na saúde, na educação, na assistência social e na
segurança pública, com o fortalecimento das organizações criminosas”,
concluiu a chefe do Executivo.
Senadores repudiam cancelamento de reunião com governo
A senadora Ângela Portela (PDT) explicou
que foi convidada pela governadora Suely Campos e não pelo Governo
Federal para a reunião no Palácio Senador Hélio Campos. “Fui informada,
posteriormente, que o cronograma foi alterado. Não comparecerei, por
considerar desrespeitoso que os ministros não visitem Boa Vista. Pelas
últimas informações que recebemos, concluo que a ‘visita’ dos ministros
não passará de uma escala técnica na Base Aérea de Boa Vista, rumo ao
Suriname”, criticou.
Para a senadora, essa é a maior
demonstração do descaso do governo Temer para com Roraima. “Se o governo
estivesse interessado em resolver a crise migratória que aflige
Roraima, faria seus ministros visitarem as ruas de Boa Vista; as praças
onde os migrantes estão dormindo; os postos de saúde superlotados; o
Corpo de Bombeiros e os órgãos de segurança, que estão arregaçando as
mangas para evitar uma calamidade; os abrigos sem condições de acolher
um enorme número de migrantes. E isto porque o líder do governo no
Senado diz que defende os interesses de Roraima. Eu já suspeitava que
esta visita era apenas uma jogada de marketing para dar a impressão de
que algo será feito. O povo do nosso estado merece mais do Governo
Federal que uma simples escala de avião”, concluiu Ângela Portela.
O senador Telmário Mota (PTB) disse que
não se poderia esperar nada de um governo que não tem nenhum interesse
por Roraima. Ele disse que vai convocar os ministros para que expliquem,
às comissões de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) e de
Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado, as medidas que
estão sendo adotadas e perspectivas futuras diante do crescente fluxo de
venezuelanos que entram em Roraima para fugir da crise econômica e
política no país vizinho. Telmário Mota disse que a "avalanche de
migração desordenada" está agravando a situação do estado, que, segundo
ele, não tem condições de dar a necessária assistência aos refugiados.
Teresa e Romero Jucá confirmam encontro com ministros
O senador Romero Jucá (PMDB) confirmou,
em sua página em uma rede social, que viajaria no avião da Força Aérea
Brasileira (FAB) com os ministros até Roraima.
A Prefeitura de Boa Vista também
confirmou que a prefeita Teresa Surita (PMDB) havia sido convidada para a
reunião e que iria para a Base Aérea. “A prefeita vai entregar uma
carta pedindo providências e investimento nas áreas de educação, saúde e
social, pois o Governo Federal vai ter que, de forma efetiva, ajudar a
resolver o problema”, frisou.
Por Folha Web





