De acordo a Polícia Federal, com a saída de pouco mais de 29 mil, mais 41 mil pessoas permaneceram no Estado
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| Mais de 400 indígenas venezuelanos moram de maneira improvisada no Ginásio do Pintolândia (Foto: Hione Nunes) |
Por meio da Lei de
Acesso à Informação, a Folha teve acesso aos dados da Polícia Federal
(PF) relacionados ao fluxo migratório de estrangeiros em Roraima. O
levantamento leva em consideração a evolução dos números de entrada e
saída de pessoas no período de três anos.
No que diz respeito ao quantitativo de
estrangeiros das mais variadas nacionalidades, o levantamento da PF
apontou que Roraima recebeu 42.467 pessoas em 2015. Apesar disso,
somente 3.636 permaneceram no Estado.
No ano seguinte, 2016, esse número subiu
para 67.601 pessoas. Nesse período, mais 50 mil estrangeiros deixaram o
Estado, permanecendo somente 10.119 pessoas. Em 2017, o número de
pessoas de outros países foi de 82.067 pessoas, mas 45.221 continuam
residindo em Roraima.
Em relação apenas aos venezuelanos, os
números são bem mais expressivos. Das 32.294 pessoas que entraram pela
fronteira com Pacaraima, em 2015, apenas 3.315 decidiram permanecer no
Estado. No ano seguinte, o número de entrada saltou para 57.106 e a
permanência para 9.677.
Já em 2017, a quantidade de venezuelanos
que buscou apoio no país foi de 70.757 pessoas. Com a saída de pouco
mais de 29 mil pessoas, o número daqueles que permaneceram no Estado
ficou em 41.755 pessoas.
De acordo com o sociólogo Elói Senhoras,
com o agravamento ainda mais forte da crise na Venezuela, a tendência é
que mais pessoas do país vizinho entrem no Brasil em busca de socorro,
principalmente pela fronteira de Roraima. “Enquanto a crise econômica e
política da Venezuela não se resolver, a situação só tende a piorar
ainda mais, tendo a Colômbia e o Brasil como as únicas rotas de
sobrevivência para aqueles cidadãos”, analisou. (M.L)
Fonte: Polícia Federal
Fonte: Polícia Federal
Mais de 1.200 venezuelanos vivem em abrigos
Outro levantamento obtido pela Folha
constatou que 1.293 venezuelanos, entre indígenas e não-indígenas, estão
alojados nos quatro abrigos construídos no Estado, sendo três deles
montados na capital, Boa Vista, e um na cidade de Pacaraima, na região
Norte.
Atualmente, segundo o Governo do Estado,
as gestões dos abrigos para imigrantes venezuelanos são realizadas de
forma compartilhada entre a Defesa Civil, Secretaria do Trabalho e
Bem-Estar Social (Setrabes), Federação Fraternidade, Fraternidade Sem
Fronteiras e Prefeitura de Pacaraima.
No primeiro abrigo construído no Estado,
localizado no Ginásio de Esportes do bairro Pintolândia, o número de
pessoas em determinado período já chegou a 500, mas atualmente, após a
separação entre índios e não-índios, conta com 418 estrangeiros.
Por lá, os voluntários da organização
Federação Humanitária Internacional Fraternidade ajudam na execução de
atendimentos de saúde, por meio de parceria com a Secretaria Especial de
Saúde Indígena (Sesai), além de aulas de português, oficinas de
artesanato e recreação, em parceria com outras entidades.
Entre as mais de 400 pessoas atendidas
está Jorge Luiz Zapata, de 45 anos. Natural do Estado de Monagas, o
artesão contou que deixou sua terra para fugir da fome e das doenças que
assolam o seu povoado. “A crise começou a ficar mais forte em 2014 e,
como consequência, começou a faltar comida e os serviços de saúde também
foram diminuindo. Como muitas pessoas estavam morrendo de malária,
decidi sair de lá e buscar ajuda no Brasil. Para chegar aqui, passei
três dias para pegar uma carona até Santa Elena de Uairén e, chegando
lá, cumprimos o trajeto novamente a pé até a barreira de Pacaraima”,
afirmou.
Zapata relatou ainda o período difícil
de adaptação no alojamento, que antes era divido com os não-índios, os
chamados “crioulos”. As diferenças entre eles eram visíveis, o que
tornava a harmonia complicada. “Quando cheguei a Roraima, há um ano, só
tínhamos este abrigo, que era dividido com os não-índios. A convivência
não era amistosa, porque eles não nos queriam aqui e isso gerava muito
conflito. Com a construção de outro abrigo e com a separação de índios e
não-índios, foi que a situação melhorou”, ressaltou.
Já adaptado, o artesão agora procura uma
maneira de conseguir ajudar no sustento dele e da família. “Hoje somos
gratos por estar aqui, pois não passamos mais fome, e gostaríamos de
permanecer aqui. Só preciso de um trabalho para poder sobreviver. Pode
ser de marceneiro, carpinteiro ou até de artesão, para poder sustentar
minha família”, pontuou.
Já no abrigo do Ginásio do bairro
Tancredo Neves, segundo o Governo do Estado, existe 495 pessoas
atualmente. O local foi montado aos poucos para receber os imigrantes
que estavam acampados na Rodoviária Internacional de Boa Vista, no
bairro 13 de Setembro, e os não-indígenas do abrigo do Pintolândia.
Vinda da cidade de Maturin, a
comerciante Elizabeth Soares, de 27 anos, está em Roraima desde outubro
do ano passado. Ela conta que veio em busca de oportunidade de trabalho
para dar uma vida melhor para o filho recém-nascido. “Nunca é fácil
deixar a sua cidade natal para se aventurar em uma cidade que você não
conhece, principalmente para uma mãe solteira como eu. Infelizmente,
tive que fazer isso, pois a crise e a fome estão muito presentes na
Venezuela. Era uma questão de sobrevivência”, comentou.
Na barraca doada pela Defesa Civil, ela
divide espaço com mais três mulheres e quatro crianças. Esperançosa, ela
espera conseguir ajuda para conseguir um emprego. “Qualquer coisa que
aparecer, eu faço. Eu sei lavar, passar, cozinhar, mas também trabalhei
como comerciante. Preciso apenas de uma oportunidade para conseguir
mudar de vida”, completou.
Além dos abrigos dos ginásios do
Pintolândia e Tancredo Neves, a Capital possui um terceiro local de
abrigo para os imigrantes. Situado no bairro Operário, o local conta
atualmente com 163 pessoas, que recebem apoio da ONG Fraternidade Sem
Fronteira.
Já o abrigo localizado no Município de
Pacaraima conta atualmente com 271 pessoas e é gerenciado em parceria
com a Defesa Civil, Prefeitura de Pacaraima e a Federação Fraternidade.
INVESTIMENTOS - Em
relação aos investimentos nos abrigos, o Governo do Estado informou, em
nota, que até o presente momento, foi realizado um único repasse de R$
480 mil pelo Ministério de Desenvolvimento Social, para subsidiar as
ações junto aos imigrantes venezuelanos no Estado.
“Este recurso foi executado para
contratação de 12 profissionais, sendo oito de nível superior
(psicólogo, assistente social, antropólogo e coordenador) e quatro de
nível médio (agente sócio-instrutor), para atuação nos dois Abrigos
Provisórios, conhecidos como Centro de Referência aos Imigrantes em Boa
Vista e em Pacaraima. Além disso, distribuição de alimentos e cargas de
gás”, ressaltou.
A Administração Estadual destacou ainda
que, devido ao grande número de imigrantes venezuelanos que estão
chegando ao Estado, houve a necessidade de decretar situação de
emergência social, por meio do Decreto 24.469, de 4 de dezembro de 2017.
“O Decreto atende a uma solicitação do Governo Federal para subsidiar o
envio de recursos ao Estado para atendimento aos venezuelanos em
situação de vulnerabilidade social”, concluiu. (M.L)
Por Minervaldo Lopes





